Lisboa, uma das cidades mais encantadoras e visitadas da Europa, está enfrentando desafios sérios devido à massificação do turismo boêmio. A gentrificação etílica, como tem sido chamada, está causando perturbações significativas na vida dos moradores locais e ameaçando o comércio tradicional. Com a proliferação de bares “low cost” que vendem bebidas baratas, as áreas históricas da cidade estão sofrendo mudanças que afetam a qualidade de vida e a preservação cultural.

Impacto do Turismo de Copos
A Junta de Freguesia da Misericórdia, responsável pela gestão de bairros icônicos como o Cais do Sodré e o Bairro Alto, está tomando medidas para conter os efeitos negativos do turismo de copos. Carla Madeira, presidente da Junta e membro do Partido Socialista (PS), destaca que o excesso de bares e o comportamento desrespeitoso dos turistas estão secando o comércio de qualidade e tradicional, forçando o fechamento de estabelecimentos históricos que não conseguem competir com os preços baixos dos novos bares.
“A massificação do turismo de copos prejudica a qualidade de vida dos moradores e seca o comércio de qualidade e tradicional. Casas de fado e restaurantes antigos estão fechando porque não conseguem competir com bares ‘low cost’, que vendem bebidas baratas”, disse Madeira.

Placas de Apelo ao Silêncio
Para tentar amenizar a situação, a Junta de Freguesia da Misericórdia está instalando placas em diversas ruas pedindo respeito e silêncio. Escritos em inglês e português, os sinais apelam para que os turistas respeitem os residentes: “Silêncio, por favor. Respeite os residentes”.
Funcionários da Junta da Misericórdia têm trabalhado para afixar essas placas em pontos estratégicos das zonas boêmias. A intenção é transmitir um recado pacífico, mas firme, sobre a necessidade de respeito mútuo entre turistas e moradores.

Gentrificação e Aumento dos Aluguéis
Um dos efeitos mais visíveis do turismo de copos é o aumento exorbitante dos aluguéis, que está forçando o fechamento de negócios tradicionais. O clássico restaurante Bota Alta, por exemplo, fechou suas portas no final de 2023 após o aluguel subir de €1,3 mil para €11 mil por mês. Segundo Madeira, quem pode pagar esses altos valores são os proprietários de bares que vendem bebidas baratas, o que cria um ciclo vicioso que afasta o comércio tradicional.
“Fechou porque quem vende bebidas baratas alugou por mais de €10 mil. Paga quem tem mais dinheiro, o que prejudica os empresários que investiram em comércio de qualidade, mas veem que à volta só há bebida. Não pode ser, não queremos isso para nossa cidade”, afirmou Madeira.

Reabertura Pós-Pandemia
A reabertura após as quarentenas para combater a Covid-19 impulsionou a proliferação de botequins e bares em Lisboa. Os proprietários desses estabelecimentos conseguiram pagar aluguéis altos, enquanto muitos comerciantes tradicionais não tiveram a mesma sorte. A falta de fiscalização adequada e a permissão de abertura de novos bares contribuíram para a situação atual.
“A nossa freguesia sempre foi boêmia e noturna, mas o problema agora é o exagero, a procura exagerada pelo consumo de álcool, que multiplicou o número de bares com portas abertas, com pessoas do lado de fora e que sequer respeitam o mínimo das regras”, contou Madeira.

Fiscalização e Regras de Silêncio
Madeira também destacou que muitos estabelecimentos comunicam previamente o funcionamento de uma outra atividade, como sorveteria ou pizzaria, mas acabam vendendo bebidas baratas, infringindo as regras estabelecidas. O regulamento de 2016 fixou 23h como limite para música, mas a falta de fiscalização tem tornado o ambiente insuportável para os moradores.
“Abrem como sorveteria e pizzaria e não é isso que acontece. E a prefeitura deixa. O regulamento de 2016 fixou 23h como limite para música. Mas não há fiscalização. Está um ambiente insuportável, uma situação cada vez pior”, disse Madeira.

Problemas em Outras Cidades
A questão do turismo de copos não é exclusiva de Lisboa. Outras cidades em Portugal, como Porto e regiões do Algarve, também enfrentam problemas similares. No Porto, a prefeitura chegou a afixar sinais em áreas boêmias no centro da cidade, proibindo a venda de bebidas nas ruas em certos horários. Cidades do Algarve, especialmente durante o verão europeu, se tornam ímãs para turistas em busca de bebidas baratas, causando perturbações locais.
Recentemente, em Albufeira, turistas ingleses e holandeses entraram em confronto após a vitória da Inglaterra na semifinal da Eurocopa, evidenciando o problema da violência associada ao consumo excessivo de álcool.

Dados de Turismo
Portugal voltou aos índices de turismo pré-pandemia em 2023, com 26,5 milhões de turistas desembarcando no país, um aumento de 7,7% em relação a 2019. O crescimento em relação a 2022 foi de 19,2%. Somente do Brasil, vieram 1,3 milhões de turistas, número 25% superior a 2022, colocando os brasileiros entre os principais visitantes, atrás apenas dos Estados Unidos.

Reações da Comunidade
Os moradores de Lisboa, tradicionalmente acolhedores, estão cada vez mais frustrados com a falta de respeito dos turistas que visitam a cidade apenas para beber. A presidente da Junta de Freguesia admite que, se a situação não melhorar, os residentes podem começar a protestar.
“Os lisboetas convivem bem com os turistas e são pacíficos. Mas quando são desrespeitados…”, alertou Madeira.
Lisboa está em uma encruzilhada, buscando um equilíbrio entre manter seu status como um destino turístico vibrante e proteger a qualidade de vida de seus moradores e a integridade de seu comércio tradicional. As medidas tomadas pela Junta de Freguesia da Misericórdia, como a instalação de placas pedindo silêncio, são passos importantes, mas a situação exige uma abordagem mais abrangente e eficaz.
A cidade precisa encontrar maneiras de controlar o turismo de copos e incentivar um turismo mais sustentável e respeitoso, que valorize a cultura local e respeite os residentes. Somente assim, Lisboa poderá continuar sendo um destino amado por turistas de todo o mundo, sem sacrificar a essência que a torna única.
Este é um momento crucial para a cidade e seus moradores, que esperam que as autoridades tomem as medidas necessárias para preservar a harmonia entre turistas e a comunidade local.
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